Espaço para o crescimento
A eclosão da crise financeira, em setembro de 2008, interrompeu, de forma grave e abrupta, um ciclo virtuoso da economia mundial. O crescimento do consumo e da produção nos últimos anos, sustentado pela expansão do comércio internacional, gerou milhares de novos empregos, retirou pessoas da pobreza, melhorou padrões de vida, estimulou inovações. Inicia-se agora uma dura etapa de ajustes, visando a reconstrução do cenário de crescimento. Certamente, não é tarefa fácil. Mas também não é algo impossível.
A indústria química, que está na base de todas as atividades — industriais, comerciais, agrícolas e de serviços — foi uma das primeiras a sentir a retração da demanda e a mudança nos sinais dos índices. E, muito provavelmente, será também um dos primeiros setores a perceber alterações na direção do vento. Daí a importância do acompanhamento econômico e estatístico efetuado pela Abiquim.
A análise do ano 2008 mostra que o consumo aparente de produtos químicos no Brasil, ainda que sustentado em sua maior parte por importações, vinha crescendo até outubro, mês em que o índice estava positivo em 1,62%. Os efeitos da crise, contudo, em especial no último bimestre, levaram o consumo aparente dos produtos químicos para uso industrial a uma queda de 3,36% no ano. A produção do segmento, influenciada não só pela retração mundial como pelas paradas para manutenção de três centrais petroquímicas do País, recuou 5%. O faturamento líquido desse segmento, de US$ 61,2 bilhões, cresceu 6,7% em 2008 e representou 50% do total do faturamento de toda a indústria química brasileira, aí incluídos produtos farmacêuticos, de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, fertilizantes, tintas, sabões e detergentes. No conjunto, o faturamento da indústria química brasileira alcançou US$ 122 bilhões, cerca de R$ 222,3 bilhões. O déficit da balança comercial brasileira de produtos químicos, mesmo com a queda do consumo no final do ano, estabeleceu novo recorde ao atingir US$ 23,2 bilhões.
São dados interessantes, que mostram o quanto os produtos químicos são importantes nas cadeias produtivas. O mais relevante no momento, contudo, não é a análise numérica, e sim a qualitativa. A indústria química brasileira fez, em anos recentes, importantes investimentos, principalmente no segmento petroquímico, e ganhou mais musculatura para atender o mercado interno e concorrer por oportunidades de exportação. Levantamento efetuado pela Abiquim, antes da crise de setembro, mostrou que os projetos de investimento em implantação ou em estudos no setor somavam, até 2013, mais de US$ 22 bilhões. A velocidade de parte desses projetos pode até ter mudado, em decorrência do quadro de menor demanda e do enxugamento das linhas de financiamento. O fato a ser destacado, porém, é a intenção do investimento, que permanece e poderá ser concretizada ao ocorrer uma melhoria no cenário. Em outras palavras, há espaço para mais investimentos e para o crescimento.
A questão, aqui, é saber como o País pode encurtar o tempo entre a intenção e a realização. Nos últimos anos, a Abiquim encaminhou diversas propostas ao governo federal para arejar o ambiente econômico interno e estimular investimentos, algo que se tornou ainda mais urgente em um momento em que a crise mundial ganha graves contornos. Algumas dessas propostas, como a adoção de uma tarifa diferenciada para o gás natural utilizado como matéria-prima, foram aceitas. A Lei do Gás, aprovada pelo Congresso Nacional, incorporou várias sugestões apresentadas pela Abiquim e atribuiu a definição de uma política específica para o gás natural utilizado como matéria-prima ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Outras, porém, como a reforma tributária, ainda não avançaram. Para a Abiquim, a simplificação das obrigações dos contribuintes e, claro, a redução do peso dos impostos, não pode mais ser protelada. O custo para o País da manutenção do atual cipoal tributário é extremamente alto, pelo que impacta na perda de competitividade das empresas brasileiras e por inibir investimentos.
Várias ações de interesse da indústria química brasileira foram desenvolvidas pela entidade em 2008. Cabe destaque ao firme posicionamento contrário à concessão de preferências tarifárias aos produtos químicos considerados sensíveis, no âmbito do acordo em negociação com o Conselho de Cooperação do Golfo; e ao apoio dado a empresas brasileiras de vários setores para o atendimento à nova legislação europeia para substâncias químicas, conhecida como Reach.
Os trabalhos desenvolvidos pela Abiquim em 2008 e as diversas iniciativas em defesa dos interesses do setor são reportados ao longo deste relatório, o último que assino como presidente do Conselho Diretor. Por mais de 20 anos, tive a honra de dirigir a Abiquim. Nesse período, acompanhei a grande evolução do setor, hoje o nono maior do mundo em faturamento líquido, e a da própria entidade, uma associação empresarial respeitada no Brasil e no exterior. Agradeço a todos os que comigo colaboraram nesse período, em especial às empresas associadas, aos membros do Conselho Diretor e aos profissionais da Abiquim.
São Paulo, abril de 2009
Carlos Mariani Bittencourt Nelson Pereira dos Reis
Presidente do Conselho Diretor Presidente executivo |